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ANÁLISE O preço da instabilidade

Inflação persistente, energia mais cara, alta do dólar e incertezas fiscais formam um ambiente que reduz investimentos, encarece o crédito e afeta diretamente o poder de compra dos brasileiros

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Há indicadores que falam antes mesmo de os governos discursarem. O IPCA-15 é um deles. Não se trata apenas de um número divulgado pelo IBGE. Trata-se de uma fotografia antecipada do custo de vida do brasileiro e, sobretudo, da confiança que a economia inspira.

 

A divulgação da prévia da inflação de junho trouxe um dado aparentemente moderado. O índice desacelerou em relação ao mês anterior, mas permaneceu pressionado pelos mesmos fatores que vêm corroendo o poder de compra das famílias: alimentos e energia elétrica. O problema não está apenas na taxa mensal, mas na persistência das causas que a alimentam. A inflação deixou de ser episódica para se tornar estrutural em determinados segmentos essenciais.

 

Quando a conta de luz sobe, não aumenta apenas o orçamento doméstico. Eleva-se o custo da indústria, do comércio, dos serviços e da produção agrícola. A energia é um insumo universal. Seu encarecimento percorre toda a cadeia econômica até chegar novamente ao consumidor.

 

O mesmo ocorre com os alimentos. A inflação alimentar possui um efeito social muito mais profundo do que a inflação de bens duráveis. Enquanto um automóvel pode esperar alguns meses para ser adquirido, ninguém pode deixar de comprar arroz, feijão, carne, leite ou frutas. O resultado é imediato: as famílias de menor renda destinam parcela cada vez maior de seus salários à simples manutenção da sobrevivência.

 

A alta do dólar completa esse círculo de pressões.

 

Embora frequentemente apresentada como um fenômeno cambial distante da realidade cotidiana, a valorização da moeda norte-americana repercute praticamente em toda a economia. Insumos industriais, fertilizantes, medicamentos, equipamentos médicos, combustíveis e diversos componentes utilizados pela indústria nacional possuem preços direta ou indiretamente vinculados ao dólar. Sempre que a moeda americana se fortalece, a inflação doméstica encontra mais um combustível.

 

Não por acaso, o Banco Central e o mercado financeiro vêm revisando suas projeções para inflação e atividade econômica. Ao mesmo tempo em que permanecem as preocupações com o comportamento dos preços, as estimativas para o crescimento do PIB passaram por novos ajustes, refletindo um cenário de expansão moderada e permeado por incertezas.

 

Esse conjunto de fatores produz um fenômeno conhecido pela teoria econômica: a redução da previsibilidade.

 

Empresários adiam investimentos.

 

Consumidores evitam financiamentos.

 

Investidores exigem maiores prêmios de risco.

 

O crédito permanece caro.

 

E o crescimento perde intensidade.

 

A economia moderna depende menos de discursos otimistas e muito mais de expectativas consistentes. Quando empresários não conseguem prever o custo da energia para os próximos meses, quando agricultores desconhecem o comportamento do câmbio e quando consumidores receiam novas altas dos alimentos, instala-se aquilo que John Maynard Keynes chamava de "estado de incerteza", ambiente em que a racionalidade econômica cede espaço à cautela.

 

Essa realidade também impõe desafios à política monetária.

 

O Banco Central encontra-se diante de um delicado equilíbrio. Reduzir juros prematuramente pode alimentar novas pressões inflacionárias. Mantê-los elevados por muito tempo, contudo, restringe investimentos, dificulta o crédito e limita o crescimento econômico. Não existe solução simples quando inflação e atividade caminham em sentidos opostos.

 

Mas talvez a maior lição oferecida pelo IPCA-15 não seja econômica. Seja institucional.

 

Inflação persistente costuma revelar desequilíbrios que transcendem a política monetária. Questões fiscais, insegurança regulatória, instabilidade internacional, crises energéticas e incertezas políticas acabam convergindo para o mesmo destino: o bolso do cidadão.

 

No fim das contas, a inflação não é apenas um indicador técnico.

 

Ela mede o grau de estabilidade de um país.

 

Quando o brasileiro percebe que seu salário compra menos a cada mês, pouco importa se a origem do problema está na bandeira tarifária da energia, na valorização do dólar, nas tensões internacionais ou nas projeções do Banco Central. O efeito concreto é o mesmo: diminui o consumo, reduz-se a confiança e enfraquece-se a percepção de prosperidade.

 

A verdadeira estabilidade econômica não nasce de índices isolados, mas da construção permanente de um ambiente institucional capaz de inspirar confiança. Porque, em economia, a confiança talvez seja o ativo mais valioso de todos — e o mais difícil de reconstruir quando se perde.

 

Arthur Bezerra de Souza Junior é advogado, economista e cientista político, doutor em Direito Político e Econômico pelo Mackenzie.

 

(Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação)


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